quarta-feira, 27 de agosto de 2014

MORREU, VIROU SANTO

Tá arriscado até o Maluf e Sarney morrerem e serem "santificados"
Centro das atenções neste ano eleitoral, os partidos políticos e o Congresso Nacional são as instituições mais mal avaliadas do Brasil, segundo pesquisa divulgada em junho pelo Datafolha. Embora seja difícil encontrar um cidadão disposto a elogiar um político, é tradição no País - e em toda a América Latina - santifica-lo depois que ele morre.

As milhares de pessoas que se aglomeraram em frente ao caixão de Eduardo Campos em frente à sede do governo de Pernambuco, em Recife, há uma semana, não continham as lágrimas. Vestidos com as cores da bandeira do Brasil ou com camisetas com o rosto do ex-governador, militantes pernambucanos se confundiam com peregrinos ao empunhar a bandeira do PSB em uma mão e o rosário na outra.

Desde a madrugada, muitos eleitores justificavam o choro, as orações e os cânticos religiosos ao afirmar que era como velar um membro da própria família. "Tomei um choque quando soube de sua morte”, lamentava na ocasião a aposentada Elisabeth Sousa, de 65 anos. “É como se ele fosse um parente meu."

Apesar de a comoção ter sido maior em Pernambuco, Eduardo Campos passou a ser tratado como um político quase sem defeitos em todo o Brasil, que parou para assistir e a ler sobre os detalhes do velório, enterro e, principalmente, o drama da família, composta por mulher e cinco filhos.

Professor de filosofia política da Unicamp, Roberto Romano acredita que o Brasil e a América Latina ainda estão na cultura barroca, absolutista quando se trata de lidar com a morte. "A exploração desse aspecto macabro é muito comum no Brasil. É uma tradição sul-americana. Basta se recordar da mobilização com as mortes de Getúlio Vargas, Simon Bolívar, Hugo Chávez, Evita Perón", enumera. "A cobertura televisiva da morte de Tancredo Neves foi um espetáculo horrendo."

O professor cita o prêmio Nobel Elias Canetti para apontar outras razões para a comoção provocada por um político que acaba de perder a vida. Ele diz que "um político poderoso é um sobrevivente" porque encarna a forma mais acabada de poder e, por isso, cada político tem de matar simbólica, moral e até fisicamente seu adversário, sempre candidato a poderoso.

Enquanto o concorrente está vivo, ele é uma ameaça combatida pelo adversário e por seus seguidores, mas tudo muda com a morte. "Ele abre espaço para o outro e deixa de ser uma ameaça, com potencial de se transformar em aliado se seus adeptos puderem ser cooptados." A troca de beijos de Dilma e Aécio no velório de Campos é citada como exemplo.

Ana Cristiana Fraia, psicóloga da Clínica Maia, afirma que, quando uma pessoa famosa morre, as pessoas identificadas com ela querem acreditar que o luto é dela também porque, assim, sua vida parece mais importante do que realmente é. “É a sensação de que ‘nasceu no meu Estado, estamos ligados. Se ele é importante, eu também sou’”, explica ela. “Mas é preciso cuidado para que essa identificação não se torne uma coisa doentia. No fundo, é apenas o preenchimento de um vazio existencial.”

Fonte: Último Segundo

APOLOGIA DO NADA


MARINA SILVA, A NOVA APOSTA DA DIREITA






quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DESAFIO DO BALDE DE GELO EM SÃO PAULO



NOS TEMPOS DO PSDB O BRASIL ESTAVA NO FUNDO POÇO




MANIA DE SELFIES PODE ESTAR PASSANDO DOS LIMITES, DIZ PESQUISADOR

'Selfies' tiradas durante o funeral de Eduardo Campos geraram debate sobre regras de comportamento
O pesquisador AndrewHoskins, da Universidade de Glasgow, na Escócia, está em São Paulo para o Fórum Permanente de Gestão do Conhecimento, Comunicação e Memória - organizado pelo Museu da Pessoa e outras instituições parceiras -, onde falará sobre como as tecnologias digitais estão mudando a maneira como os acontecimentos atuais se tornam memória.

Manter-se conectado a todo momento, segundo Hoskins, já é parte integrante da experiência de estar em qualquer lugar e se tornou uma espécie de compulsão. Isso ajudaria a explicar, por exemplo, a polêmica levantada pelos autorretratos tirados durante o funeral de Eduardo Campos.

O pesquisador, que fundou a publicação especializada Memory Studies, fala até mesmo de um "esvaziamento da memória" à medida que as pessoas se tornam mais dependentes das buscas online e guardam extensos arquivos e fotos pessoais digitais que nunca serão visualizados.

"A memória sempre se faz no presente. Ainda não entendemos a magnitude da maneira como a tecnologia mudará nossa memória no futuro", disse o pesquisador à BBC Brasil.

Confira a entrevista:

BBC Brasil: Durante o funeral do ex-candidato presidencial Eduardo Campos, pessoas foram criticadas por tirar selfies mesmo próximo ao caixão. Como você vê isso? Pode ser considerado desrespeitoso ou seria uma reação normal ao estar presente em um evento histórico?
Andrew Hoskins: Depende do ponto de vista de cada um. A noção do que é público se transformou com a tecnologia. E há agora o que eu chamo de compulsão pela conectividade. Então a pergunta a se fazer é por que as pessoas estão tirando selfies? Por que elas estão constantemente registrando tudo? É em parte a ideia do que é estar em um espaço público hoje, o que é entender uma certa experiência ou evento.
A tecnologia sempre esteve presente nesse sentido, mas para mim há um ponto em que chegamos longe demais. É quando registrar o evento se torna mais importante do que ver o que está sendo registrado. Acho que esse momento estamos vivendo agora.

BBC Brasil: E a noção que temos dessas regras de comportamento vai mudar ao longo do tempo?
Andrew Hoskins: Essa moral é geracional e está sempre mudando. São níveis diferentes de alfabetização midiática. O uso normal para uma pessoa não é o mesmo para outra.

Quando eu vou para um show, eu quero ver uma banda, eu vou para ver a performance. Eu não quero alguém diante de mim balançando o telefone, a câmera ou um iPad. Mas eu sou de outra geração, eu acho isso estranho. Eles claramente acham que não. Eles acham que isso é parte rotineira do que significa estar em um evento ao vivo. Essa midiatização dos eventos é algo que mudou muito nos últimos cinco anos.

Pesquisador Andrew Hoskins diz que a tecnologia está mudando a forma como fatos se tornam memórias

Eu também vivo tirando fotos e gravando tudo o que acho interessante, não estou acima disso. Mas você precisa se perguntar: como seria essa experiência se você não a tivesse registrado? O que ela significaria para você uma semana ou dois meses depois sem aquele registro audiovisual? Quão importante é esse registro na formação da memória daquele evento? Outras pessoas construirão suas memórias sem isso e sempre foi suficiente.

BBC Brasil: Em seu livro iMemory você diz que a compulsão pela conectividade pode ser responsável pelo esvaziamento da nossa memória. Como esse esvaziamento acontece? Nos lembramos de menos coisas porque estamos muito ocupados tirando fotografias?
Andrew Hoskins: A memória hoje é menos uma questão de lembrar e mais uma questão de saber para onde olhar. Muitos psicólogos dizem que há uma diminuição da memória humana por causa da nossa crescente confiança na tecnologia. Quando eu era criança, eu tinha que lembrar das coisas. Agora se eu não me lembro, posso digitar e aparece para mim.

A grande mudança é que a confiança nas tecnologias da comunicação e da informação para criar memórias, para se sociabilizar e para se informar está passando a ser um dependência. E esse é o ponto crítico. Diferentes países estão em diferentes estágios, mas estamos todos entre a confiança e a dependência das tecnologias.

Contar com essas tecnologias é bom, na minha opinião. Mas depender delas é outra coisa. A noção de compulsão pela conectividade sugere para mim que estamos dependentes. É essa coisa de não poder ficar sem checar mensagens no telefone, sem tirar fotos. De não poder ficar desconectado por algum tempo, porque nos sentimos sozinhos e alienados.

BBC Brasil: E é possível determinar quais eventos as pessoas devem ou não registrar? Como shows ou mesmo funerais?
Andrew Hoskins: Há pessoas que estão tentando. Há algumas bandas que pedem aos fãs que não gravem, não fotografem e não usem seus telefones durante os shows e alguns aderem a isso. Mas eles são a exceção, não a regra. A sensação é de que isso é inevitável e de que a penetração dos smartphones faz parte da sociabilidade do dia a dia. É impossível escapar deles.

BBC Brasil: Mesmo antes dos celulares, estes eventos já eram sociais. Em funerais, já se debatia o hábito de conversar animadamente com outras pessoas. Nos anos 1960 já se dizia que fãs dos Beatles iam aos shows mais para gritar do que para assistir à banda. A tecnologia móvel mudou isso tanto assim ou estamos apenas nos adaptando a um novo formato?
Andrew Hoskins: Em países e regiões diferentes as coisas mudam em ritmos distintos. O que é um comportamento aceitável em cada lugar é cultural e regional. É difícil ter uma resposta única para esta pergunta. Mas é realmente uma questão de adaptação.

Especialmente se você pensar que muitas das pessoas tirando essas fotos são de uma geração mais nova. Há 30 anos, quando eu era criança, a pessoa que tirava todas as fotos das férias em família era meu pai. Era o pai que determinava o que seria, no futuro, a memória da família. Então tínhamos aquela perspectiva bastante patriarcal e masculina. Quem tira as fotos hoje? Os filhos. Então temos hoje uma perspectiva diferente sobre as famílias. Nesse sentido, a mudança é interessante.

BBC Brasil: No caso da política, é mais fácil hoje trazer de volta promessas de campanhas e escândalos envolvendo os candidatos para continuar cobrando respostas. A tecnologia estaria ajudando a nossa memória política?
Andrew Hoskins: Sim e não. Há muitas maneiras de responder a essa pergunta. Uma delas tem a ver com a maneira como os políticos estão lidando com o presente, porque eles sabem que tudo está sendo gravado e poderá ser usado contra eles. Na Grã-Bretanha, acho que o discurso político se tornou muito insosso porque os políticos têm medo de dizer algo que eles sabem que dois meses depois será recuperado rapidamente para contradizer a próxima coisa que eles disserem.

Segundo pesquisador, 'selfies' podem ser explicadas por uma compulsão pela conectividade

 O jornalismo sempre fez isso, mas era muito difícil. Você tinha que analisar um arquivo imenso para encontrar o momento em que uma pessoa prometeu algo. Mas agora qualquer um pode fazê-lo, chama-se Google. Isso tem um efeito adverso na política. Porque os políticos, assim como qualquer um, não querem ter que responder por opiniões e promessas que inevitavelmente mudam - por boas e más razões. Então o discurso deles tende a ser mais vazio.

Por outro lado, há uma filosofia de que a memória perfeita e completa sobre todas as coisas é algo bom, mas isso ignora algo fundamental: nem todas as memórias são boas. Também queremos esquecer coisas. Esquecer não é disfuncional, é muito importante.

BBC Brasil: Mas ao escolher representantes políticos é importante lembrar, não?
Andrew Hoskins: Sim e não. Quando o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown chamou uma eleitora de "preconceituosa" em 2010, a tecnologia o pegou desprevenido. (Gordon havia acabado de cumprimentar a mulher, Gillian Duffy, e fez o comentário momentos depois, no carro, para um de seus assessores, sem perceber que ainda usava um microfone do canal de TV Sky News. O caso repercutiu em todo o país).

Um microfone que estava ligado o pegou falando o que ele realmente pensava e isso foi visto como degradante. Aquela frase representava tudo o que Gordon Brown pensava? Provavelmente não. Mesmo assim, ela manchou a memória política do homem que ele foi e das coisas que pensou.

fonte:BBC Brasil


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

POR QUE OS EUA E A EUROPA RELUTAM EM CRITICAR ISRAEL?

Americanos e europeus reconhecem direito de Israel de "se defender"
Enquanto várias cidades do mundo registraram protestos contra Israel pelos ataques à Faixa de Gaza, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia muitos governos relutam em questionar a estratégia militar israelense.

Desde o início da ofensiva, mais de 1.800 palestinos foram mortos, 75% deles civis, segundo as Nações Unidas. As vítimas israelenses foram 67, quase todos militares, à exceção de três civis.

Mas a ONU fez grandes críticas a Israel depois que uma escola da organização no campo de refugiados de Jabaliy, em Gaza, foi bombardeada pelos israelenses – episódio que resultou em 15 mortes. Os Estados Unidos chegaram a criticar Israel, mas ressaltaram o direito do país "se defender".

Há alguns dias, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália também pediram um cessar-fogo e reprovaram a perda de vidas, mas da mesma forma foram cuidadosos em ressaltar o "direito de defesa" de Israel.
Quando o Conselho de Direitos Humanos da ONU votou na quarta-feira passada uma abertura de investigação para determinar se Israel cometeu crimes de guerra em Gaza o resultado foi 29 a 1. Os Estados Unidos votaram contra, e França, Alemanha e Grã-Bretanha se abstiveram.

A própria criação do Estado de Israel, após o holocausto judeu, está enraizada nos interesses de potências como Estados Unidos e Grã-Bretanha.

Washington reconheceu o Estado de Israel no mesmo dia de sua proclamação, em 1948. Com o tempo, o país se tornou o principal aliado americano na região.

"Os Estados Unidos, em diferentes governos, sempre sentiram a necessidade de defender Israel de ataques globais, particularmente na ONU, onde há um amplo número de países da África, Ásia e América Latina que estão dispostos a se unir para criticar Israel", disse à BBC Mundo Edward Gnehm, ex-embaixador dos Estados Unidos na Jordânia e hoje professor da Universidade George Washington, na capital americana.

A relação atual entre os dois países está embasada em mais de US$ 3 bilhões em ajuda financeira militar fornecida pela Casa Branca. Segundo o Serviço de Investigações do Congresso americano, Israel é o principal receptor de ajuda estrangeira dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. O valor acumulado da assistência chega a US$ 121 bilhões.

Além disso, parte significativa da população americana simpatiza com Israel. Uma pesquisa recente realizada pelo Centro de Investigação Pew revelou que 40% dos americanos considera que o Hamas é culpado pela violência atual em Gaza. Os que culpam Israel são 19%.

Além disso, 35% dizem que a resposta de Israel ao conflito está sendo adequada, enquanto 25% opinam que ela foi exagerada.

Na Europa, a postura dos países não é homogênea nem responde às mesmas condições. Uma das razões está relacionada ao sentimento de culpa em relação aos judeus, segundo Mariano Aguirre, diretor do Centro Norueguês de Construção da Paz.

A Alemanha, por exemplo, é sensível às relações com Israel e permanece atenta ao surgimento de estereótipos antissemitas.

Segundo Michael Brenner, diretor do Centro de Estudos de Israel da Universidade Americana, em Washington, em algumas manifestações recentes os participantes fizeram uma diferença entre Israel e os judeus.

"Qualquer crítica a Israel é permitida, mas (o governo) será mais severo com os efeitos antissemitas dessas manifestações", ele disse.

Aguirre afirmou que a história colonial da França e da Grã-Bretanha também estão relacionadas ao tema. Segundo ele, esses países "ficam presos em seus próprios discursos" na medida em que as decisões que tomaram no início do século 20 criaram uma atual "inércia diplomática" - que hoje eles não querem revisar.

Para especialistas, Israel desfruta sentimento de impunidade ao violar tratados com ação militar

 Outro fator importante para os países europeus é a relação com Washington. "Se criticam Israel, os países sabem que estão colocando em dúvida a postura dos Estados Unidos", disse Félix Arteaga, pesquisador do Instituto Real Elcano, uma organização não governamental espanhola.

De acordo com ele, os governos europeus não vão criticar a desproporcionalidade dos ataques israelenses antes que o governo Barack Obama o faça.

Além disso, um fator conjuntural também dificulta que as nações da Europa critiquem Israel. "A União Europeia já tem muitos problemas para articular sanções contra a Rússia por causa do conflito na Ucrânia e não pode abrir outra frente", disse Arteaga.

Por causa desses fatores, segundo o pesquisador, Israel desfruta uma sensação de "impunidade".

"Há muito tempo os Estados Unidos e a Europa, líderes nesse conflito, aceitaram implicitamente que Israel tem impunidade. Por isso, pode violar sistematicamente o direito internacional, o direito humanitário e os acordos de que é signatário sem ser condenado", afirmou.

Israel já violou 32 resoluções do Conselho de Segurança da ONU desde 1968, segundo um estudo de Steven Zines, da Universidade de San Francisco, publicado no jornal israelense Haaretz.

Segundo Nadim Shehadi, investigador associado de Oriente Médio na Chatan House, um centro de estudos em Londres, uma solução do conflito no momento atual daria força ao Hamas – classificado como grupo terrorista por Washington - na OLP (Organização para a Libertação da Palestina).

"O Hamas se declararia vitorioso", segundo Shehadi. Ele afirmou que os Estados Unidos e a Europa querem evitar isso a qualquer custo.

Além disso, segundo Aguirre, americanos e europeus ficaram sem uma "resposta política" após o fracasso das negociações da criação dos dois Estados lideradas pelo secretário de Estado americano John Kerry.
"Ficaram sem um marco de referência e sem modelos de negociação para oferecer".

fonte:  BBC Brasil


A BANDEIRA DA VERGONHA