quinta-feira, 19 de novembro de 2015

MULHERES E O SEXO NO PRIMEIRO ENCONTRO


Texto de Regina Navarro Lins

A maioria das pessoas que já fez sexo no primeiro encontro. Mas isso nem sempre é simples para muitas mulheres.
Desde que o homem descobriu que participa da procriação, mantém sob controle a sexualidade da mulher. E isso aconteceu há cinco mil anos, quando ele ficou obcecado pela certeza da paternidade, para só deixar a herança para os filhos legítimos.
No século 19, chegou-se a criar teorias para sustentar que a mulher não gosta de sexo, que seu único prazer é satisfazer o marido e cuidar dos filhos. É claro que, da década de 60 para cá, com todo o movimento de liberação sexual, essas ideias caíram por terra.
Hoje, todos sabem que homens e mulheres têm a mesma necessidade de sexo, e que a mulher pode ter tanto prazer quanto seu parceiro. Contudo, curiosamente, a maioria das pessoas finge não saber.
Se uma mulher foge ao padrão de comportamento tradicional, ou seja, não esconde que gosta de sexo, é inacreditável, mas ainda corre o risco de ser chamada de galinha ou de piranha.
As próprias mulheres participam desse coro, ajudando a recriminar as outras, que conseguiram romper a barreira da repressão e exercem livremente sua sexualidade. Não é nenhuma novidade, mais uma vez os próprios oprimidos lutando para manter a opressão.
Entretanto, para o homem, fazer sexo com uma mulher no mesmo dia em que a conhece é considerado natural, ele até se valoriza por isso. Há os que se dizem liberais, sem preconceitos, nada moralistas. Será? Para se ter certeza, é só perguntar o que elas acham da mulher que transa com um homem no primeiro encontro.
O sexo, quando vivido sem medo ou culpa, pode levar a uma comunicação profunda entre as pessoas. A maioria das mulheres se recusa a fazer sexo no primeiro encontro, mas não por falta de desejo.
É a submissão ao homem, ou seja, a crença de que tem que corresponder à expectativa dele. A partir daí inicia-se uma encenação, onde o script é sempre o mesmo: o homem pode fazer sexo, a mulher não.
Ele insiste, ela recusa. O tesão que os dois sentem é igual, mas ele continua insistindo e ela continua dizendo não. Ela acredita que, se ceder, ele vai desvalorizá-la e não vai se dispor a dar uma continuidade à relação. Vai sumir logo depois que gozar. E o pior é que muitos homens somem mesmo.
A luta interna entre os antigos e os novos valores não está concluída. Alguns se sentem obrigados a depreciar a mulher, que sentiu tanto desejo quanto eles, e não fingiu. “Ora, ela deveria saber resistir mais bravamente”, pensam. Submissos ao modelo imposto, funcionam como robôs, aceitando que seja determinado com que mulher podem namorar ou casar.
Afinal, em que encontro a mulher pode fazer sexo com um homem? No segundo, terceiro, sexto? Qual? O grau de intimidade que você sente na relação com uma pessoa não depende do tempo que você a conhece.
Além disso, o prazer sexual também independe do amor ou do conhecimento profundo de alguém. Para um sexo ser ótimo basta haver muito desejo e vontade de obter e proporcionar prazer. E uma camisinha no bolso, claro.
Estamos vivendo um momento de transição, em que os antigos valores estão sendo questionados, mas novas formas de pensar e viver ainda causam medo pelo desconhecido. Há os que sofrem por se sentir impotentes para fazer escolhas livres. É preciso ter coragem.

A NATUREZA, POR EDUARDO GALEANO


AQUI JAZ


domingo, 15 de novembro de 2015

CHEGA DE NOTÍCIAS RUINS

Em todos os lugares que compareço para realizar minhas palestras, eu sou questionado: "Por que vocês da imprensa só dão 'notícia ruim'?"
O questionamento por si só, tantas vezes repetido, e em lugares tão diferentes no território nacional, já deveria ser motivo de profunda reflexão por nossa categoria. Não serve a resposta padrão de que "é o que temos para hoje". Não é verdade. Há cinismo no jornalismo, também. Embora achemos que isto só exista na profissão dos outros.
Os médicos se acham deuses. Nós temos certeza!
Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo.
O "ministro" Delfim Netto, um dos mais bem humorados frasistas do Brasil, disse há poucas semanas que todos estamos tão focados em sermos "líquidos" que acabaremos "morrendo afogados". Ele está certo.
Outro dia, Delfim estava com o braço na tipoia e eu perguntei: "o que houve?". Ele respondeu: "está cada vez mais difícil defender o governo".
Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também.
O Governo acumula trapalhadas e elas precisam ser noticiadas na dimensão precisa. Da mesma forma que os acertos também devem ser publicados. E não são. Eles são escondidos. Para nós, jornalistas, não nos cabe juízo de valor do que seria o certo no cumprimento do dever.
Se pesquisarmos a quantidade de boçalidades escritas por jornalistas e "soluções" que quando adotadas deram errado daria para construir um monumento maior do que as pirâmides do Egito. Nós erramos. E não é pouco. Erramos muito.
Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a "má vontade" e o "ódio" como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na "igrejinha", ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos.
Certa vez, um homem público disse sobre a imprensa: "será que não tem uma noticiazinha de nada que seja boa? Será que ninguém neste país fez nada de bom hoje?". Se depender da imprensa brasileira, está muito difícil achar algo positivo. A má vontade reina na pátria.
É hora de mudar. O povo já percebeu que esta "nossa vibe" é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil. Não temos compromisso com o governo anterior, com este e nem com o próximo. Temos responsabilidade diante da nação.
Nós devemos defender princípios permanentes e não transitórios.
Para não perder viagem: por que a gente não dá também notícias boas?

CORRUPTOS


domingo, 8 de novembro de 2015

FELICIDADE


EXERCÍCIO DE ANÁLISE DE DISCURSO

O texto genial abaixo foi escrito por Chico Bicudo.

Um minutinho de atenção para um modesto e simples exercício de análise de discurso.  Observem as duas matérias abaixo, publicas hoje pelo "Estadão".  Estão na mesma página.  A notícia sobre o ex-presidente Lula recebe destaque, está no alto, embora as doações já fossem conhecidas.  O título sugere que foi Lula, pessoa física, quem recebeu o dinheiro, e não o Instituto Lula, o que faz muita diferença.  A empresa é nomeada - Odebretch.  E quem faz a afirmação tem nome também, a Polícia Federal, estratégia discursiva que pretende garantir legitimidade à afirmação.  Argumento de autoridade.  Passemos agora à segunda notícia, que vem abaixo, com menos destaque, embora fosse, jornalisticamente, a novidade - pela primeira vez, foram identificados repasses para o Instituto FHC.  Notem também que, enquanto lá, "Lula recebeu...", aqui a "empreiteira doou...".  Faz toda a diferença.  Ações atribuídas a sujeitos diferentes.  Além disso, a empreiteira não tem nome, é genericamente chamada de "empresa".  O destinatário da grana é o Instituto FHC, não o ex-presidente FHC.  E quem chancela a denúncia é um "laudo", e não mais a PF.  Generalidades, de novo.  Pergunto - esse tratamento narrativo absurdamente diferenciado e seletivo é casual?  Mera coincidência?