segunda-feira, 30 de maio de 2016

MICHELZINHO





DEZ DICAS PARA DESCOBRIR SE UMA NOTÍCIA É FALSA

Por Leonardo Sakamoto

Talvez você nem saiba, mas está comprando gato por lebre na internet. Descobrir que uma notícia circulando é falsa nem sempre é simples e mesmo profissionais de comunicação experientes caem em armadilhas. Mas manter-se sempre atento e refugiar-se no alto do seu ceticismo é fundamental. Por isso, trago algumas dicas que podem ser úteis para testar a credibilidade de sites e páginas que querem te usar como massa de manobra.

1) Verifique se o veículo que traz a notícia pertence a uma empresa, pessoa ou organização conhecidas. Não que isso seja um atestado de credibilidade, mas uma pessoa jurídica ou física que corre o risco de pagar altas indenizações tende a tomar mais cuidado do que um site fabricado de última hora que se mantém anônimo.

2) Evite páginas que não trazem a pessoa ou equipe que produzem o conteúdo. Quem dá a cara para bater é mais confiável. É claro que há páginas na rede com difamadores que usam pseudônimos para fugir de punições. Não dá para zerar o risco, mas checar se a pessoa da qual você compartilha sempre textos existe mesmo vale a pena.

3) Se você acha que se informa o suficiente apenas lendo um título, por favor, não compartilhe nada nessa vida. Um título bombástico pode esvaziar feito uma bexiga furada ao você ler o texto e perceber que nada o sustenta.

4) A foto que acompanha a notícia é nova ou antiga? Ela foi descontextualizada, ou seja, ilustra outra coisa diferente e está sendo distorcida para servir ao propósito do texto falso? Dá para perceber que ela foi alterada no Photoshop?

5) Desconfie de textos que não trazem fontes confiáveis, como entrevistados e pesquisas de instituições conhecidas, para defender as informações e números divulgados.

6) Muita gente não faz diferença entre um texto opinativo e um narrativo. No jornalismo, os dois têm seu valor, mas informação precede opinião. Desconfie de textos que querem se fazer passar por notícias, mas são opinião pura. Exija provas.

7) Links para documentos, áudios, vídeos e imagens não são, necessariamente, provas. Eles precisam trazer dados novos e relacionados à denúncia e, acima de tudo, precisam fazer sentido. Muitos difamadores colocam esses elementos porque sabem que a maior parte das pessoas nem vai clicar neles, achando que existem provas irrefutáveis simplesmente porque estão lá.

8) Ao ver uma denúncia cabulosa em um site ou página obscuros, verifique se algum veículo de comunicação mais conhecido, progressista ou conservador, deu também. Desconfie de notícias que circulam apenas entre sites anônimos e grupos de WhatsApp. Muitas vezes esses sites e grupos pertencem às mesmas pessoas que produziram o texto falso.

9) A população sabe escolher entre uma alface boa e uma ruim na feira, mas não foi educada (e isso deveria fazer parte do currículo escolar) para identificar o que são argumento falsos. Se soubesse, condenava algumas páginas e sites ao esquecimento. Sobre formas de pegar um argumento falso, sugiro este texto que publiquei aqui.


10) Por fim, lembre-se: uma notícia não é verdadeira simplesmente porque você concorda com ela ou porque ela reforça sua visão de mundo. Eu sei que é bom quando o mundo diz que estamos certos, mas a vida não é conto de fadas. Aprender a consumir informação com a qual não concorda, mas que tenha qualidade, porque ela ajuda a explicar o mundo em que você vive, acredite, é sinal de maturidade.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A DIREITA DE CORPO INTEIRO


Para quem se dedicava a dizer que direita e esquerda eram categorias superadas, o Brasil é um choque de realidade. Fazia tempo que um governo não se mostrava, de corpo inteiro, como expressão da direita, em todos os campos. (Quem alegar que se trata de uma exceção, basta olhar para Argentina e verá a confirmação do que estamos dizendo.)

No período histórico atual, a direita defende o neoliberalismo como modelo econômico. As lutas de fundo da nossa época se dão entre quem defende esse modelo, que busca mercantilizar tudo, fazer com que tudo tenha preço, tudo se compre, tudo se venda, e as alternativas e buscas de sua superação, afirmando os direitos de todos. Uns governam para os que interessam ao mercado, os outros tratam de governar para todos.

A direita do nosso tempo é seletiva, excludente, porque se baseia nos mecanismos de mercado, da eficiência, da lucratividade. Por isso os mais frágeis são suas primeiras vítimas. A austeridade grega começou terminando com os remédios gratuitos para os idosos, medida que também se implantou na Argentina e que se anuncia aqui. Estão fora do mercado, já não são produtivos, nem consumidores de produtos de luxo, não têm influencia na formação da opinião pública. E agora vivem mais tempo, transformando-se em ônus para a sociedade mercantil. E assim se segue em outros setores da sociedade: crianças e jovens negros, deficientes físicos, artistas da periferia, mulheres donas de casa, entre outros, generalizando-se para todos os pobres, a grande maioria da nossa sociedade.

Um malthusianismo social se instala, que seleciona conforme os critérios de mercado. Não são necessários tantos trabalhadores, basta apenas uma certa quantidade de especializados, os outros sobreviverão na precariedade. Não é necessário produzir para alimentar o lucro das empresas, basta especular, comprar papeis baratos e vender caros, tomar dinheiro dos clientes a um preço e emprestar 10 vezes mais caro. Quem se der bem, sobrevive, quem não, fica pelo caminho, não foi capaz de corresponder às exigentes necessidades do mercado.

A ação interina do governo Temer passa a limpo todas as políticas sob essa ótica. Empresa estatal tem que dar lucro, não que prestar serviço à sociedade. Banco público não é para fazer política social, se não produzir lucro, não serve. Já existem os bancos privados. Programas sociais que desperdiçam recursos devem ser revistos e passados a limpo. O governo não existe para sustentar pessoas improdutivas. Empresários têm que pagar menos impostos, para que disponham de mais recursos para fazer seus negócios.

O Estado tem que ser mínimo e o mercado máximo. O Estado é fonte de burocracia, de desperdício, de corrupção e por isso deve ser reduzido a uma mínima dimensão. O mercado é a fonte da expansão econômica, da produtividade, ele pune os incompetentes e remunera os competentes.

A educação não é uma política social, ela faz parte da economia, deve preparar mão de obra para a indústria. Enem, Fies, ProUni são custos excessivos sem retornos econômicos. Nas universidades públicas, tudo o que der, deve ser pago. Médicos de fora do Brasil, nem pensar, temos os profissionais competentes aqui mesmo. SUS, saúde para todos, é um luxo que não podemos nos permitir. "Quanto mais gente tiver plano de saúde privado, melhor", disse o novo ministro da saúde, cuja campanha eleitoral teve esses planos como seus principais financiadores.

O Estado não deve ser proprietário de empresas, essa é uma função da economia privada. Compete ao Estado dar o apoio para a acumulação privada de riquezas, com financiamentos subsidiados, isenções, infraestrutura e outras formas de baratear os custos das empresas privadas.

Cultura, direitos humanos, igualdade racial, direitos de mulher – são temas secundários e devem estar integrados a outros ministérios. Ministério da Justiça vai se ocupar dos direitos humanos, Ministério da Educação da Cultura e assim por diante. Quanto à ciência e Tecnologia, não temos que inventar a roda, basta importar tecnologias dos países mais desenvolvidos.

A função de imprensa já esta em mãos das empresas privadas secularmente, a mídia pública deve se limitar a dar os comunicados oficiais do governo e a prestar serviços de informação das atividades do governo à população.

Enfim, o Estado atua em função do mercado, o país se adaptar às dimensões e necessidades do mercado, as políticas do governo promover a eficácia econômica, as contas ajustadas, que as pessoas se adaptem ao Estado que, por sua vez, se adapta ao mercado.


Quem tinha se esquecido do que é a direita, em toda sua extensão e radicalidade, tem agora uma fotografia de corpo inteiro, com toda a frieza e a crueldade que elas contem. Quanto à esquerda, em todas as suas correntes, privilegia as necessidades das pessoas, busca tornar o Estado um instrumento da democratização econômica, social, politica e cultural, trata de ser governo para todos. Diferenças abismais, como aquelas que hoje separam e contrapõem o governo golpista e as imensas e fantásticas mobilizações de rejeição a esse governo.