quarta-feira, 29 de junho de 2016

O QUE OS LEITORES QUEREM: UM JORNALISMO QUE BUSQUE O MÁXIMO DE ISENÇÃO OU UM ESPELHO DAQUILO QUE PENSAM?

Há muito já sabemos que imparcialidade não existe nem em sentença judicial, quanto mais na produção diária de notícias. A crítica aos jornais deve também passar por uma crítica de consciência do leitor. Não basta acusar a ausência de imparcialidade das mídias jornalísticas, o que é importante, pois deve-se ir além. A busca pela imparcialidade está hoje mais na capacidade do leitor de buscar diferentes narrativas factuais e pontos de vistas entre as inúmeras fontes e formas de acesso trazidos pela era digital do que pela ação editorial dos jornais que, como já sabemos, nunca foram capazes de tal feito.
Anteriormente considerado um produto altamente perecível (o que as bancas de jornais não vendiam até o fim do período da manhã estava fadado ao encalhe), os jornais agora são reverberados pelos leitores através das redes sociais, durante o dia todo e, muitas vezes, pelos dias subsequentes (no último caso, o que importa não é a novidade da notícia em si, mas a capacidade de permitir passar a ideia que o leitor tem sobre o mundo ou seus problemas).
Cada vez menos o editor tem controle sobre o impacto do que é publicado. Segundo a Reuters, o brasileiro é o que mais consome notícias por redes sociais (70%) e o que mais comenta (44%). Uma notícia ou artigo em local de pouco destaque em um jornal pode ser compartilhado quase infinitamente, ganhando uma visibilidade antes impensada editorialmente. O 4º poder está mudando e isso deve-se muito à forma pela qual o leitor se relaciona com as notícias.
A pluralidade se esvai nos editoriais e nos artigos de opinião
Para repercutir uma mesma forma de pensamento vale qualquer coisa. De Joselito Müller a Diário Pernambucano, conhecidos por inventarem notícias falsas, são reproduzidos nas redes sociais como verdades desde que o artigo ou “notícia” tenha a mesma linha de pensamento de quem compartilha, o que, para muitos, parece ser o suficiente para ser verossímil.
Nesse ínterim, notícias sem qualquer relação com a verdade, como o gasto de milhões pelo Ministério da Cultura para a produção de uma estátua com mulheres seminuas em homenagem ao funk, tampouco com um discurso minimamente verossímil, como a instituição do bolsa-prostituta que daria dois mil reais ao mês para as mulheres que deixassem esta profissão,
Os grandes jornais de hoje não vivem só de novidades. Os artigos de opinião têm a capacidade de se aproximar do leitor (não necessariamente dialogar) e fogem da perecividade comum às notícias. Estas últimas servem, no entanto, como combustível para novos artigos opinativos, originais ou não, de qualidade ou não, repetitivos ou não. O número de artigos de opinião é quase tão grande quanto o noticiário. Basta ir a jornais como Folha de S.PauloEstadão e O Globopara perceber isso. Vendem, inclusive, a ideia de que essa pluralidade é sinônimo de isenção. Mas quem lê Guilherme Boulos, lê Kim Kataguiri?
A maioria dos articulistas conversa com um público específico, dado à reprodução de seus artigos nas redes sociais, pequenos sites, blogs ou demais páginas digitais, como música de uma nota só, repetitivamente, exaustivamente. Tal “pluralidade” defendida pelos jornais serve menos como análise dos fatos e mais como marcador de determinados pontos de vista ou ideologias compartilhadas por certos grupos de pessoas.
Nos pequenos portais de notícias, a pluralidade se esvai tanto nos editoriais, nos artigos de opinião, como nas notícias que produzem e reproduzem, geralmente contra ou a favor de alguma coisa. De Brasil 247 à Folha Política, quem entra lá sabe exatamente o que vai encontrar. Funcionam como as reprises dos programas e desenhos infantis – muitas vezes fantasiosos –, que não cansam as crianças mesmo sendo repetidos e repetidos indefinidamente, sem apresentar novidades no enredo. Diz a psicologia infantil que isto está ligado à capacidade das crianças de terem controle sobre o que veem. Sem surpresa, sabem, de antemão, que o rato dará um jeito de escapar do gato até final do episódio e que tudo acabará como deve acabar: sem sustos. O mesmo comportamento parece permanecer em muitos leitores, já adultos.

LAR DOCE LAR


sexta-feira, 24 de junho de 2016

BREXIT


O DEDO DE LULA

Texto de Emir Sader


Dois ídolos do ódio racista que a direita promoveu no Brasil, Bolsonaro e Moro, usaram o dedo do Lula para expressar seus valores. Bolsonaro imprimiu e difundiu camisetas em que aparece a mão do Lula com quatro dedos, explorando o defeito físico do maior líder popular que o Brasil já teve. Moro, conversando com seus comparsas, se refere ao maior dirigente político que o país tem como "nine", uma forma depreciativa de mencionar Lula.

São duas formas de expressão em que se revelam personalidades desprezíveis, odiosas execráveis, de preconceito e de tentativa de desqualificação de um líder popular, de um operário, de um imigrante nordestino. Coisas que incomodam profundamente à direita brasileira e por isso ela se expressa, através de seus lideres, dessa forma. Expressam bem o que é a elite branca brasileira do centro sul, que se considera dona do país e sempre tratou de tratar aos outros – os de origem popular, os do nordeste, os trabalhadores – como bárbaros, selvagens, "mal informados", como disse o outrora líder dessa gente, o FHC.

A sociedade brasileira teve sempre a discriminação como um dos seus pilares. A escravidão, que desqualificava, ao mesmo tempo, os negros e o trabalho – atividade de uma raça considerada inferior – foi constitutiva do Brasil, como economia, como estratificação social e como ideologia.

Uma sociedade que nunca foi majoritariamente branca teve sempre como ideologia dominante a da elite branca. Sempre presidiram o país, ocuparam os cargos mais importantes nas FFAA, nos bancos, nos ministérios, na direção das grandes empresas, na mídia, na direção dos clubes, nas universidades, nos governos – em todos os lugares em que se concentra o poder na sociedade, estiveram sempre os brancos.

A elite paulista e do sul do país representa, melhor do que qualquer outro setor, esse ranço racista. Nunca assimilaram a Revolução de 30, menos ainda o governo de Getúlio. Foram derrotados sistematicamente por Getúlio e pelos candidatos que ele apoiou. Atribuíam essa derrota aos "marmiteiros"- expressão depreciativa que a direita tinha para os trabalhadores, uma forma explicita de preconceito de classe.

A ideologia separatista de 1932 – que considerava São Paulo "a locomotiva da nação", o setor dinâmico e trabalhador, que arrastava os vagões preguiçosos e atrasados dos outros estados – nunca deixou de ser o sentimento dominante da elite paulista em relação ao resto do Brasil. Os trabalhadores imigrantes, que construíram a riqueza de São Paulo, eram todos "baianos" ou "cabeças chatas", trabalhadores que sobreviviam morando nas construções – como o personagem que comia gilete, da música do Vinicius e do Carlos Lira, cantada pelo Ari Toledo, com o sugestivo nome de pau-de-arara, outra denominação para os imigrantes nordestinos em São Paulo.

A elite paulista foi protagonista essencial nas marchas das senhoras com a igreja e a mídia, que prepararam o clima para o golpe militar e o apoiaram, incluindo o mesmo tipo de campanha de 1932, com doações de joias e outros bens para a "salvação do Brasil"- de que os militares da ditadura eram os agentes salvadores.

Terminada a ditadura, tiveram que conviver com Lula como líder popular e o Partido dos Trabalhadores, para quem canalizaram seu ódio de classe e seu racismo. Lula é o personagem preferencial desses sentimentos, porque sintetiza os aspectos que a elite paulista mais detesta: nordestino, não branco, operário, esquerdista, líder popular.

Não bastasse sua imagem de nordestino, de trabalhador, sua linguagem, seu caráter, está sua mão: Lula perdeu um dedo não em um jet-sky, mas na máquina, como operário metalúrgico, em um dos tantos acidentes de trabalho cotidianos, produto da super exploração dos trabalhadores. Está inscrito no corpo do Lula, nos seus gestos, nas suas mãos, sua origem de classe. É insuportável para o racismo da elite branca brasileira.

Essa elite racista teve que conviver com o sucesso dos governos Lula, depois do fracasso do seu queridinho – FHC, que saiu enxotado da presidência – e da sua sucessora, a Dilma. Teve que conviver com a ascensão social dos trabalhadores, dos nordestinos, dos não brancos, da vitória da esquerda, do PT, do Lula, do povo.

O ódio a Lula é um ódio de classe, vem do profundo da burguesia paulista e do centro sul do país e de setores de classe média que assumem os valores dessa burguesia. O anti-petismo é expressão disso. Os tucanos foram sua representação política e a mídia privada, seu porta-voz.
Da discriminação, do racismo, do pânico diante das ascensão das classes populares, do seu desalojo da direção do Estado, que sempre tinham exercido sem contrapontos. Os Cansei, a mídia paulista, os moradores dos Jardins, os adeptos do FHC, do Serra, do Gilmar, dos otavinhos – derrotados, desesperados, racistas, decadentes.

Na crise atual, a burguesia e setores da classe media do centro sul protagonizaram algumas das cenas mais vergonhosas da historia brasileira, nas manifestações contra a democracia, a favor do golpe e da ditadura militar, exibindo suas dimensões mais fascistas e discriminatórias. Colocavam pra fora o ódio contra os que tinham regulamento o trabalho das empregadas domésticas, que já não serviriam à opressão e à exploração indiscriminada das patroas. Contra os que tinham transformado o Nordeste, que tinham aberto as universidades para os jovens pobres, contra os que tinham permitido aos pobres de viajar para ver seus parentes ou para fazer turismo. Contra os que fizeram do Brasil um país menos injusto, menos desigual, contra os que tiraram o país do Mapa da Fome, a que as elites brancas tinham condenado o povo para sempre.

E Lula sempre foi e continua sendo a expressão mais alta desse movimento de democratização social do Brasil. Gente como Bolsonaro e Moro ofendem a Lula porque sabem que assim ofendem ao povo, aos trabalhadores, aos nordestinos. Tentam desconhecer que a indústria brasileira foi construída com as mãos de operários como o Lula, que os carros em que eles passeiam foram construídos por trabalhadores como o Lula. Que o dedo que Lula perdeu são os muitos dedos que os acidentes diários de trabalho provocam nos trabalhadores, para sobreviver com baixos salários e produzir as riquezas do Brasil.

O racismo é um crime imprescritível. Bolsonaro e Moro são os herdeiros do político do sul que disse que "iam acabar com essa raça por décadas". Deveriam ser processados por racismo, ao exibir essas camisetas com Lula sem um dedo e ao falar de Lula como "nine". São seres desprezíveis, odiosos, execráveis, do pior que o Brasil tem, pelo ódio de classe ao povo, aos trabalhadores, aos nordestinos, pelo ódio ao Brasil.


Nós nos orgulhamos de Lula como eles não podem se orgulhar de seus ídolos, promotores do estupro de mulheres e agentes fascistas contra os partidos e líderes de esquerda, contra a própria democracia, que é e será fatal para eles.

FUJA ENQUANTO HÁ TEMPO


MUSEU DO GOLPE


sexta-feira, 10 de junho de 2016