sábado, 25 de fevereiro de 2017

HIPOCRISIA

Texto de Luis Fernando Verissimo

O ministro Celso de Mello tem razão. O ministério dado pelo Temer ao Moreira Franco em nada se parece com o cargo que a Dilma queria dar ao Lula. A principal diferença é que o Temer inventou um ministério exclusivamente para acolher o amigo. Alvejou duas coisas com um decreto só: a ética e a austeridade propagada pelo seu governo. O codinome do Moreira Franco na Polícia Federal é “Angorá”, e Temer o tratou com o carinho que só um bicho de muita estimação merece. O que não deixou de ser bonito, como qualquer manifestação de amizade.

Na sua sentença, o ministro Celso de Mello disse que o foro privilegiado presenteado ao Moreira Franco não impede que ele sofra processos. Esqueceu-se de mencionar que o foro privilegiado beneficia os investigados com a protelação dos processos, o que, na maioria dos casos julgados pelo Supremo, resulta em prescrição ou repasses a instâncias inferiores, ou o desaparecimento. Matéria publicada no GLOBO sobre o assunto, há dias, mostra que a condenação de julgados com foro especial ocorre em apenas 0,74% dos casos. Menos de um por cento! Não se acuse o respeitável ministro Celso de Mello de hipocrisia. Hipócrita é o sistema que permitiu que se chegasse a essa deformação.

Minha anedota favorita: há anos fez muito sucesso um bolero chamado “Hipócrita”. Um bêbado entra numa boate onde se apresenta um cantor. A plateia pede insistentemente que o cantor cante o bolero da moda, gritando “Hipócrita!”, “Hipócrita!”, “Hipócrita!”. O bêbado salta da sua cadeira e também começa a gritar “Filho da mãe!”, “Cretino!”. Está bem, a anedota não é tão boa assim. Eu só queria dizer que quando se começa a chamar até um sistema judiciário de hipócrita, outros epítetos virão. Vivemos hoje, no Brasil, à beira de um cinismo terminal, que aumenta cada vez que um Jucá, um Padilha, um Eunício Oliveira, um Rodrigo Maia um etc. abre a boca. A desmoralização da classe política no Brasil levará algumas gerações para ser sanada, no futuro.


Mas talvez nosso futuro não seja o desejado. Jair Bolsonaro vem aí. Ele foi o segundo colocado, depois do Lula, numa pesquisa recente sobre intenção de voto em 2018. Bolsonaro presidente? Impensável, claro. Como a eleição de Trump nos Estados Unidos. Que você viva em tempos interessantes é o que os chineses desejam ao pior inimigo.

QUE PAÍS É ESTE?


FANTASIA CAMPEÃ DO CARNAVAL 2017


ESCOLINHA DO PROFESSOR MICHEL


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

BANDIDO BOM É BANDIDO RICO

Texto de Walmyr Júnior

Os acontecimentos dessa semana, referente à prisão do ricaço Eike Batista, revelam para nós a falta de coerência de uma parcela da população brasileira. Sabemos bem que pessoas de diferentes classes sociais cometem os mesmos crimes, mas por que recebem tratamentos diferentes? Sabemos que é só um jovem negro ou pobre roubar um celular e rapidamente estará ele amarrado a um poste, agredido ou morto.

Não quero entrar no mérito de debater se o Eike é ou não é culpado, se ele teve informações privilegiadas, se realmente corrompeu o sistema, se colaborou com desvio de verba, se sonegou ou pagou propina para burlar os editais do governo do Estado. O que quero debater é sobre a incoerência do povo que tira foto, se exibindo ao lado do bilionário, que faz campanha no Facebook em apoio ao mesmo, que o aplaude pelos seus feitos em apoio financeiro ao Governo durante o mandato do também encarcerado Sérgio Cabral. Se ele é culpado ou não, não cabe a mim descobrir nem julgar. Porém, é curioso uma pessoa ser julgada por crimes que envolvem desvio de bilhões e receber tanto carinho da população.

Lembro que recentemente viralizou nas redes sociais algumas imagens que retratavam como os veículos de comunicação diferenciam crimes cometidos por pessoas negras e pobres e por pessoas ricas ou da classe média. Quem não lembra da matéria postada pelo G1 com o título “Polícia prende jovens de classe média com 300kg de maconha no Rio”. Para um jornalista não chamar de bandido ou traficante um indivíduo da classe média que foi preso por tráfico de 300 kg, fico até esperançoso de achar que pode ser um ato de abolicionismo penal, valor que eu defendo e o pratico. Porém, o que fica ao ler matérias com esse recorte é a certeza do racismo, preconceito e má-fé.

O debate fica em torno dos pesos e medidas de um sistema social falido. É nítido que pessoas de diferentes classes econômicas cometendo os mesmos crimes recebem tratamentos diferentes. Não esqueçamos do brasileiro, jogador de futebol do Barcelona, que foi acusado de sonegar milhões e foi saudado por seus milhões de fãs em seu julgamento.

O caso do Eike não é diferente. Diferente é o caso dos milhares de jovens pobres e negros que são abandonados no sistema penitenciário. Um mecanismo de ressocialização que só muda para pior a vida do detento. Celas lotadas, insalubridade, comida estragada e o total descaso, é o que não encontrará em Bangu o senhor Eike. O mesmo já possui cela individual, levou seu travesseiro para a cadeia e com certeza, as outras regalias chegarão acompanhadas da corrupção do sistema.


* Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

ENTREVISTA COM PESSOAS QUE AINDA NÃO TIVERAM FILHOS



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ATÉ ONDE VAI ISSO TUDO?

Texto de André Forastieri

Até onde vai isso tudo? Até que a missão do atual governo seja cumprida. Atenção: o governo não é o Planalto. O governo é o amálgama de interesses entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. O que os une é a submissão ao grande Capital e a compreensão que a maioria dos brasileiros não tem noção do que acontece no Brasil, nem imaginação para sonhar com outro país, e muito menos energia para construi-lo. O que move o Brasil é a inércia.